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Mapa do crime

PCC e CV estão em mais estados brasileiros que o McDonald's

Facções criminosas somam presença em 26 unidades da federação e movimentam R$ 6 bilhões por ano, ultrapassando redes globais em capilaridade

08/06/2026 09h31
Por: Redação
(Foto: Ilustração)
(Foto: Ilustração)

O Brasil vive uma realidade paradoxal: enquanto redes internacionais de fast food como o McDonald's enfrentam dificuldades para se expandir em certas regiões do país, duas organizações criminosas — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — consolidaram uma presença territorial que impressiona até especialistas em segurança pública. De acordo com levantamentos recentes de inteligência e estudos acadêmicos, as duas facções estão atualmente instaladas em 26 das 27 unidades da federação (todos os estados, com exceção pontual de algumas áreas de disputa), número superior aos 22 estados onde a gigante do hambúrguer opera lojas físicas no Brasil.

Os números vão além da geografia do crime. Estima-se que o PCC e o CV movimentem, juntos, cerca de R$ 6 bilhões por ano — valor que supera o faturamento anual de muitas empresas de médio porte listadas na bolsa. Essa receita milionária provém majoritariamente do tráfico de drogas (especialmente cocaína e maconha), mas também inclui extorsão, roubo de cargas, contrabando de armas, exploração de jogos ilegais e, cada vez mais, a infiltração em negócios lícitos como transportadoras, postos de gasolina, construtoras e até cooperativas de reciclagem.

A capilaridade das facções não é fruto do acaso. O PCC, fundado em 1993 no presídio de Taubaté (SP), construiu ao longo das últimas três décadas uma estrutura descentralizada e altamente conectada, baseada em células locais que se comunicam por aplicativos criptografados e mensageiros. O CV, originário dos presídios do Rio de Janeiro na década de 1970, adotou modelo semelhante, ampliando sua influência para o Norte e Nordeste, muitas vezes em aliança ou disputa feroz com grupos locais.

O resultado é que, hoje, é mais provável encontrar um ponto de venda de drogas administrado por facção em pequenas cidades do interior do que uma franquia do McDonald's. Enquanto a rede americana concentra suas lojas em capitais e grandes centros urbanos, o crime organizado se infiltrou em municípios de 10, 20, 30 mil habitantes, onde o Estado é frágil, a polícia está subdimensionada e o mercado consumidor de entorpecentes cresceu com a interiorização do tráfico.

Para se ter uma ideia da dimensão, o PCC está presente em todos os estados das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, com forte atuação também na Amazônia Legal. O CV domina vastas áreas do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Amazonas, Roraima, Maranhão e Ceará, frequentemente em conflito com o PCC pela rota da droga que sai da Bolívia, Peru e Colômbia em direção à Europa e ao mercado brasileiro.

A comparação com o McDonald's, embora surpreendente, serve como um termômetro da ausência do Estado em vastas porções do território nacional. Enquanto uma empresa multinacional exige segurança jurídica, infraestrutura, logística de suprimentos e poder de consumo para se instalar, o crime organizado opera na informalidade, prescinde de licenças ambientais e sanitárias, e se beneficia justamente da falta de controle estatal.

Especialistas em segurança apontam que os R$ 6 bilhões anuais movimentados por PCC e CV representam não apenas um mercado ilegal gigantesco, mas também um poder de corrupção e intimidação que corrói instituições locais. Prefeitos, vereadores, delegados, juízes e até padres já foram cooptados ou ameaçados por facções que buscam garantir rotas, silêncio e impunidade.

Outro dado alarmante é a velocidade de expansão. Estudos mostram que, entre 2016 e 2024, a presença do PCC e do CV em municípios brasileiros saltou mais de 200%, acompanhando o aumento dos homicídios, das apreensões de drogas e do número de presos vinculados a facções. As organizações aprenderam a usar o sistema prisional como quartel-general, recrutando novos membros e planejando operações de dentro das celas — muitas vezes com acesso a celulares, internet e até fac-símiles.

O governo federal e os estados têm tentado responder com forças-tarefa, inteligência compartilhada e ataques financeiros a contas suspeitas. Programas como o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) e a Operação Hinsberg, da Polícia Federal, conseguiram congelar bens e desarticular núcleos financeiros do crime. No entanto, a estrutura descentralizada das facções torna quase impossível uma "vitória final" — o máximo que se alcança são baixas temporárias, rapidamente substituídas.

Enquanto isso, o brasileiro comum convive diariamente com a realidade que os números escancaram: o PCC e o CV estão mais presentes no país do que a rede mais famosa de fast food do mundo. Não há propaganda, não há franquias, não há logomarcas coloridas. Mas há mortes, medo e um fluxo bilionário de dinheiro sujo que circula livremente onde o Estado faz corpo mole ou fecha os olhos. O mapa do crime já foi redesenhado. Falta saber se o Brasil ainda tem tempo e vontade para traçar novas rotas.

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