Em um discurso que ecoou como recado direto ao governo americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira (16) que o combate ao crime organizado transnacional deve respeitar a soberania de cada país. A fala ocorreu durante a sessão ampliada da cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França, com a presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na plateia .
A declaração foi interpretada como uma resposta à decisão do Departamento de Estado americano, anunciada em 28 de maio e em vigor desde 5 de junho, de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras . O governo brasileiro rejeitou publicamente a classificação, temendo que ela abrisse brecha para intervenções militares estrangeiras em território nacional, como já ocorreu em operações americanas na Colômbia e na Venezuela sob a justificativa do combate ao narcotráfico .
"Outros temas, como o combate aos crimes transnacionais, também devem fazer parte da agenda de desenvolvimento. Um deles é o desafio do crime organizado, que aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas. Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados", afirmou o presidente brasileiro .
Lula reforçou que o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos, como lavagem de dinheiro e tráfico de armas — uma crítica velada ao fato de que grande parte das armas contrabandeadas para o Brasil tem origem nos Estados Unidos . O petista também defendeu o fortalecimento da cooperação institucional por meio da Interpol, organização da qual o brasileiro Valdecy Urquiza assumiu recentemente a secretaria-geral .
Além do recado sobre soberania, Lula aproveitou o palco do G7 para criticar o que chamou de "respostas falaciosas" do protecionismo e do unilateralismo para os problemas globais . "Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos. O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias", declarou .
Em outro momento do discurso, o presidente brasileiro mirou na fortuna do empresário Elon Musk, aliado de Trump, ao afirmar que "o primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial" . A fala ocorreu dias após a SpaceX, de Musk, atingir a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado .
Apesar da presença de ambos no mesmo evento, Lula e Trump não tiveram reunião bilateral até o fim da tarde, e diplomatas consideravam improvável um encontro separado . O cenário ocorre em meio a novas tensões comerciais: o Escritório do Representante de Comércio dos EUA recomendou a aplicação de tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros, com prazo para negociação até 15 de julho .
O governo brasileiro já manifestou "profunda discordância" com a medida e tem adotado uma estratégia de confrontar as acusações americanas com dados concretos sobre avanços no combate ao desmatamento e ao trabalho forçado, duas das justificativas citadas pelos EUA para as tarifas . Pela manhã, Lula se encontrou com o primeiro-ministro francês, François Bayrou, e está prevista uma reunião com o presidente francês, Emmanuel Macron, para tratar de parcerias estratégicas .
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