O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), elevou o tom das críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao relacionar dois temas que têm dominado o noticiário nacional e internacional: a expansão das facções criminosas no Brasil e a imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos. Em discurso realizado na última semana, Caiado afirmou que o governo federal "transformou organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho em verdadeiras multinacionais do crime" e que, por essa razão, os EUA reagiram com sobretaxas sobre produtos brasileiros.
"A política de leniência e de ausência do Estado nas fronteiras fez com que o PCC e o CV se instalassem em mais estados do que o McDonald's. Eles controlam rotas, têm logística, lavam dinheiro em 12 países. Isso é uma multinacional do crime, e o governo Lula olha para o lado. Resultado: os Estados Unidos nos colocaram na lista de países problemáticos e agora aplicam tarifas. Eles estão reagindo ao nosso desgoverno", declarou Caiado, durante evento com empresários em Goiânia.
A declaração do governador faz referência direta a duas frentes sensíveis. A primeira é a já conhecida capilaridade das facções, que, segundo dados de inteligência, atuam em 26 dos 27 estados brasileiros e movimentam cerca de R$ 6 bilhões por ano. A segunda é a recente decisão do governo americano, sob a administração de Joe Biden primeiro e agora sob novas medidas comerciais no contexto pós-Trump, de impor tarifas adicionais a produtos siderúrgicos, alumínio e agrícolas brasileiros, citando, entre as justificativas, preocupações com a falta de controle sobre o crime organizado transnacional e a proteção insuficiente à propriedade intelectual — embora as tarifas tenham motivações primordialmente econômicas.
Caiado, no entanto, foi além ao estabelecer uma causalidade direta: "O crime organizado virou política de Estado. Enquanto o governo fecha os olhos para o PCC e o CV, os EUA fecham seus mercados para o Brasil. É a conta chegando", completou, recebendo aplausos da plateia majoritariamente formada por produtores rurais e representantes do setor produtivo goiano, que tem sofrido com os impactos das barreiras comerciais norte-americanas.
A fala do governador gerou reações imediatas. O Palácio do Planalto, por meio de nota oficial, classificou as declarações como "irresponsáveis e desconectadas da realidade diplomática e econômica", afirmando que "as tarifas americanas são resultado de políticas protecionistas unilaterais, não guardam relação com a segurança pública brasileira" e que "o governo federal tem investido recordes em inteligência, fronteiras e integração com agências internacionais no combate ao crime organizado".
Especialistas em relações internacionais ouvidos pela reportagem apontam que, embora os EUA tenham incluído o Brasil em relatórios sobre países com presença significativa de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro — o que pode afetar negociações comerciais e acordos de cooperação —, não há evidência técnica de que as tarifas aplicadas recentemente tenham sido motivadas diretamente pela atuação do PCC ou do CV. "A política tarifária americana responde a interesses industriais domésticos, déficits comerciais e, em alguns casos, a questões geopolíticas. Criminalidade é um tema secundário nessa agenda", explica um professor de economia internacional.
No entanto, a crítica de Caiado toca em um nervo exposto: a percepção de que o crime organizado brasileiro ganhou escala e sofisticação nos últimos anos, atuando em múltiplos países da América do Sul, Europa e até África, com braços logísticos e financeiros que rivalizam com estruturas empresariais legítimas. Para o governador, essa "internacionalização do crime" ocorreu com conivência ou omissão do governo federal.
"Enquanto o governo Lula se preocupa em receber ditadores e criticar os EUA, as facções estão abrindo escritórios virtuais em Miami, comprando imóveis em Lisboa e mandando cocaína para Antuérpia. Isso é coisa de multinacional. E multinacional paga imposto? Não, paga bala", disparou Caiado, arrancando novos aplausos.
A declaração também reacendeu as tensões entre o governador goiano e o Planalto, que já vinham se acumulando por conta de divergências na gestão da pandemia, no repasse de verbas para infraestrutura e na disputa política em torno da sucessão presidencial de 2026. Caiado é um dos nomes cotados para a disputa e tem apostado em um discurso de segurança, austeridade e combate ao crime como contraponto ao governo Lula.
Enquanto isso, nos bastidores da segurança pública, agentes federais e estaduais reconhecem que o PCC e o CV realmente adquiriram características de redes transnacionais, com rotas estabelecidas, sistemas de comunicação sofisticados e capacidade de corromper autoridades em diferentes países. Contudo, avaliam que culpar exclusivamente o atual governo por um fenômeno gestado ao longo de três décadas é reducionismo político.
O fato é que a fala de Caiado — ainda que exagerada em sua relação causal com as tarifas americanas — conseguiu expor um incômodo real: o Brasil viu nascer dentro de suas fronteiras dois dos maiores esquemas criminosos do hemisfério sul, e ainda não encontrou resposta à altura para desmontar essa "multinacional do crime". Se ela realmente influencia a imagem do país no exterior, é outra discussão. Mas que cresceu sob os olhos de sucessivos governos — incluindo o atual —, isso é fato incontornável.
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