A nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 18 de junho de 2026, não é apenas mais um capítulo nas investigações sobre o escândalo bilionário do Banco Master. Ao mirar o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, a operação transfere o centro de gravidade das suspeitas para o coração do Partido dos Trabalhadores e do estado da Bahia, governado pela legenda há duas décadas. Com as eleições presidenciais de 2026 se aproximando, o desdobramento tem potencial para redesenhar o tabuleiro político, desgastando a narrativa governista e colocando a oposição em uma posição delicada.
Os agentes federais cumpriram 18 mandados de busca e apreensão em endereços na Bahia, São Paulo e no Distrito Federal, incluindo o Brasília Palace Hotel, onde reside o senador . A investigação apura a suspeita de que Jaques Wagner tenha recebido vantagens indevidas do empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, em troca de atuação política em temas de interesse da instituição financeira no Congresso .
Entre os benefícios que a PF investiga estão a compra de um apartamento de R2,4milho~esemSalvadorerepassesquesomammaisdeR 5 milhões à BN Financeira, empresa ligada à família do senador . A decisão, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, também determinou medidas cautelares como a proibição de contato entre os investigados e a suspensão de passaportes . Em um dos endereços alvo, agentes apreenderam US$ 49 mil em espécie .
A relação entre Wagner e Augusto Lima, segundo a PF, é antiga, próxima e marcada por "elevado grau de confiança", com registros de viagens em jatinhos particulares e interações familiares . O empresário Lima é uma figura central no caso: foi ele quem implementou, durante o governo de Jaques Wagner na Bahia, o sistema de crédito consignado Credcesta, que posteriormente se tornou o principal ativo financeiro do Banco Master . Lima chegou a ser preso na primeira fase da operação, em novembro de 2025, mas foi solto pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região .
A operação gerou reações imediatas no cenário político. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, saiu em defesa do senador, afirmando ter "confiança que Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência" . O próprio Wagner já havia se manifestado anteriormente sobre o caso, negando qualquer vínculo com as supostas irregularidades. Em maio, ele rebateu acusações da oposição, afirmando que o "trambique" do Banco Master foi feito durante o governo de Jair Bolsonaro e que a "gênese" do problema não estava na Bahia .
No campo oposicionista, a reação foi incisiva. O pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o "PT da Bahia foi implodido pela PF" e classificou a operação como um "alento de que a impunidade vai ser combatida" . O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também pré-candidato, declarou que o "escândalo do Banco Master não começou em Brasília, mas na Bahia. O PT da Bahia não é vítima, mas cúmplice" . O Partido Liberal (PL) já lançou uma campanha nas redes sociais com a hashtag #PTMaster, em uma tentativa de associar o partido diretamente à trama e rebater a narrativa "BolsoMaster" que vinha sendo usada por petistas .
Para a pré-campanha de 2026, a operação pode ter efeitos profundos e contraditórios. Por um lado, o desgaste do principal líder do governo no Senado, um nome de confiança de Lula, representa um golpe na imagem do PT, que tenta se distanciar do escândalo financeiro . Isso pode minar a narrativa de defesa da "retomada ética" e dar munição à oposição.
Por outro lado, o caso também expõe um problema para Flávio Bolsonaro e outros nomes da direita, que também estão implicados no escândalo do Master. O senador Flávio teve sua pré-campanha pressionada pela revelação de conversas nas quais ele pediu dinheiro a Daniel Vorcaro . Como analisa o colunista Rodrigo Constantino, "o PT perde a cartada do BolsoMaster, ao mesmo tempo que Flávio dificilmente vai querer explorar as relações de Vorcaro com petistas, pois todos lembram de sua própria ligação com o banqueiro fraudulento" .
A nova fase da Compliance Zero coloca em xeque a estratégia de ambos os lados. Para o PT e o governo Lula, a operação obriga uma defesa de um de seus quadros mais importantes em meio à campanha. Para a oposição, ela oferece a oportunidade de atacar, mas também traz à tona o próprio envolvimento de seus principais líderes no mesmo escândalo. O "Master" se tornou um campo minado para a política brasileira em 2026, e os próximos desdobramentos da Polícia Federal serão decisivos para definir o vencedor da batalha eleitoral.
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