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Tensão diplomática

Lula chama tarifaço de Trump de “coisa desaforada” e avança retórica antiamericana no G7

Presidente petista chama tarifaço de Trump de “coisa desaforada”, critica “imperialismo” americano, mas mantém postura reativa que expõe fragilidade negociadora do Brasil na cena internacional

18/06/2026 17h44
Por: Redação
(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou sua participação na cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, com uma declaração que deve ecoar nos noticiários dos dois lados do Atlântico: ao ser questionado sobre as novas tarifas propostas pelo governo Trump contra produtos brasileiros, o petista classificou a medida como "uma coisa desaforada" e afirmou que o republicano "continua agindo como imperador".

A declaração — forte, pessoal e carregada de retórica antiamericana — pode até agradar ao eleitorado petista mais radical, mas revela uma fragilidade incômoda na condução da política externa brasileira. Afinal, qual a utilidade de um discurso de confronto quando o país não tem instrumentos reais para retaliar a maior economia do mundo?

A própria narrativa de Lula expõe um problema de planejamento diplomático. O presidente admitiu ter sido "pego de surpresa" com o anúncio das tarifas, afirmando que o governo americano não o comunicou oficialmente sobre a decisão. A ida de Lula ao G7, aliás, só foi confirmada após o anúncio das tarifas — ou seja, o petista foi "arrastado" para a cúpula por uma decisão unilateral de Trump, em vez de pautar a agenda internacional com iniciativa própria.

Pior: Lula afirmou que "não pediu bilateral com Trump porque nós estamos em negociação" — quando a própria essência de uma negociação é, justamente, sentar à mesa e conversar. Se o governo brasileiro acredita que o melhor caminho é o diálogo, por que não aproveitar a oportunidade de um encontro presencial no G7 para avançar na discussão? O que sobra é a impressão de que o Brasil ficou à margem do debate, reagindo em vez de protagonizar.

A retórica contra o "imperador" e a realidade do (des)equilíbrio de forças

Lula tem razão quando aponta que a decisão de Trump foi abrupta e desrespeitosa com as tratativas em andamento. É fato que o governo americano anunciou a possibilidade de tarifas adicionais (25% sobre produtos brasileiros, com potencial de chegar a 37,5%) em meio a negociações que ainda estavam em curso. É compreensível a irritação do presidente.

O problema é o tom escolhido. Chamar Trump de "imperador" e sua medida de "coisa desaforada" pode render manchetes no Brasil, mas na diplomacia internacional, esse tipo de retórica soa como birra de um país que sabe que está em posição frágil. Enquanto Lula se apega ao discurso nacionalista, a realidade é que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, e uma escalada tarifária pode custar caro à economia nacional — com impactos diretos na indústria, no agronegócio e no bolso do consumidor.

A defesa da soberania e o "não se meta"

Ao mesmo tempo, Lula aproveitou o palco para pedir que Trump "não se meta nas eleições do Brasil", rebatendo as declarações do republicano sobre a "situação política perigosa" no país. O presidente brasileiro defendeu o sistema eleitoral e afirmou que Trump "conhece pouco o Brasil".

Aqui, Lula tem razão: a interferência de líderes estrangeiros em processos eleitorais de outros países é, de fato, uma violação da soberania nacional. E a declaração de Trump — que confundiu os filhos de Bolsonaro e sugeriu que opositores estariam sendo perseguidos — é, no mínimo, desastrada.

Mas, mais uma vez, a postura de Lula parece mais reativa do que estratégica. Em vez de usar o episódio para construir pontes com outros líderes do G7 e isolar Trump diplomaticamente, o petista preferiu o confronto direto, alimentando a narrativa de que o Brasil é um país "politicamente difícil" — a mesma que Trump usou para justificar as tarifas.

O preço do confronto

A análise mais realista do episódio, feita por analistas ouvidos pela BBC, indica que Lula pode até ter ganhos temporários de popularidade com o discurso nacionalista, mas o preço a ser pago pode ser alto: a relação com os EUA se deteriora, a economia brasileira fica exposta a retaliações e o governo petista perde a credibilidade como interlocutor confiável no cenário internacional.

O que falta a Lula — e a isso o petista parece não se dar conta — é uma estratégia consistente para lidar com um adversário como Trump. Chamar o presidente americano de "imperador" até pode fazer sucesso nas redes sociais, mas não é uma política externa. É apenas uma catarse populista que, no fim das contas, não resolve o problema real: o Brasil precisa de negociação, não de discurso inflamado.

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